Pesquisa e prática clínica

Literatura e saúde mental

Uma mulher que não consegue falar da própria perda consegue falar da perda de uma personagem. E é falando dela que, sem perceber, começa a falar de si.

  • Dissertação de mestrado — UNIP, 2025
  • Aprovada em Comitê de Ética
  • CRP 06/167219
Laiane Andreoleti, psicóloga clínica e supervisora, sentada diante de uma estante de livros em seu consultório.
Laiane Andreoleti · CRP 06/167219

Resposta direta

A literatura funciona como dispositivo de cuidado porque oferece um rodeio necessário: falar da dor de uma personagem expõe menos do que falar da própria, e por isso permite que o que estava travado comece a ser dito.

É o tema da minha dissertação de mestrado em Práticas Institucionais em Saúde Mental (UNIP, 2025), aprovada em Comitê de Ética, sobre a potencialidade da literatura em grupo como ferramenta no cuidado ao luto e à saúde mental. E é o que sustenta a Comunidade Hibiscos.

O problema que a literatura resolve

Quem trabalha com grupos conhece a cena: a roda se forma, o tema é proposto, e ninguém fala. Não por falta de assunto — pelo contrário. É que pedir a alguém que relate a própria dor diante de desconhecidos é pedir uma exposição que a maioria das pessoas, com razão, não quer fazer de saída.

O texto literário desfaz esse impasse. Ele coloca no centro da roda uma história que não é de ninguém ali — e sobre a qual, portanto, todas podem falar sem se expor. A conversa começa segura. E então, quase sempre, ela se desloca sozinha.

Como funciona na prática

  1. O texto entra na rodaUm conto ou trecho é lido no encontro. Não há leitura prévia obrigatória e não há cobrança de interpretação correta.
  2. Fala-se da personagemO que ela fez, o que sentiu, o que a gente faria no lugar dela. Território seguro, porque não é sobre ninguém presente.
  3. O próprio apareceAlguém diz "isso é igualzinho ao que aconteceu comigo" — e a partir dali está falando de si, sem ter precisado se anunciar.
  4. O grupo sustentaO que se abriu não fica solto: é acolhido e trabalhado, com a condução de uma psicóloga.

Por que isso importa especialmente no luto

Porque o luto é justamente o campo em que a linguagem falha com mais frequência. Enlutados relatam repetidamente a mesma coisa: não encontram palavras, e as poucas que encontram soam pequenas demais para o tamanho do que sentem.

A literatura oferece um repertório pronto de imagens para o que não cabe na fala cotidiana. Não porque explique a perda — não explica —, mas porque dá forma. E dar forma ao que era informe é uma boa descrição do trabalho de elaboração. Veja psicanálise e luto.

Certas dores encontram passagem primeiro na história de outra pessoa, antes de conseguirem ser ditas na primeira pessoa.

Não é biblioterapia de autoajuda

Vale a distinção, porque o campo tem de tudo. Não se trata de indicar livros que ensinam a superar, nem de extrair lições morais de uma história, nem de prescrever leitura como se fosse receita.

O texto não entra como resposta: entra como ponto de partida. Na Comunidade Hibiscos, os contos de Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés, cumprem exatamente esse papel — mediadores simbólicos, não manual de instruções.

Onde esse trabalho acontece

  • Comunidade Hibiscos — grupo terapêutico online de mulheres mediado pela literatura.
  • Oficinas e rodas de conversa — em contextos institucionais e comunitários.
  • Aulas e formações — para estudantes e profissionais que queiram trabalhar com o dispositivo.
  • Pesquisa — grupo sobre Morte e Envelhecimento da PUC-SP, e os dois capítulos publicados em Do Luto ao Sentido (2024), sobre luto, feminino e psicanálise.

Dúvidas frequentes

Qualquer livro serve?

Não. A escolha do texto é parte do trabalho clínico, e não uma questão de gosto pessoal. Um texto que entrega conclusão pronta fecha a conversa em vez de abrir; um que expõe demais pode mobilizar mais do que o grupo consegue sustentar. O que se procura são histórias que deixem espaço para a projeção de quem lê.

Preciso gostar de ler para participar de um grupo assim?

Não. Os textos são lidos dentro do encontro, e ninguém precisa ter familiaridade com literatura, repertório prévio ou facilidade de interpretação. O que se pede é disposição para conversar sobre uma história — e isso praticamente todo mundo tem.

Isso substitui psicoterapia?

Não. O grupo mediado pela literatura é um dispositivo de cuidado, e é conduzido por psicóloga, mas não substitui o acompanhamento individual quando ele é necessário. Quando percebo que uma participante precisa disso, converso com ela e oriento sobre o encaminhamento.

Você forma outros profissionais para usar esse dispositivo?

Ministro aulas e formações sobre o tema para estudantes e profissionais — veja aulas para cursos de Psicologia. Para quem quer aplicar isso na própria prática de forma continuada, o caminho mais consistente é a supervisão clínica.

Conteúdo informativo escrito por Laiane Paula Andreoleti (CRP 06/167219). Não substitui avaliação individual, diagnóstico ou tratamento. Em situações de urgência, procure o CAPS da sua região, o SAMU (192) ou o CVV (188, 24 horas, ligação gratuita).

Nem toda dor cabe em uma frase própria. Algumas cabem primeiro em uma história.

Se isso faz sentido para você, me escreva — para o grupo, para a clínica ou para uma formação.

Falar com a Laiane

Em caso de emergência psiquiátrica, procure o CAPS mais próximo, o SAMU (192) ou o CVV (188, 24h, ligação gratuita).